Virando a Mesa: Remover as Miniaturas salvou o D&D?

Dungeons & Dragons está indo melhor do que nunca, graças à uma onda de shows movidos à nostalgia como Stranger Things e à Renascença Old School, o crescimento das streams de partidas ao vivo e uma base de jogadores expandida que inclui mulheres. As razões para isso variam, mas uma possibilidade é que D&D não precisa mais de miniaturas. Mas já precisou?

Ei, como assim?

Quando Vivian Kane entrevistou Jeremy Crawford, o gamedesigner-chefe de D&D, para o site TheMarySue (em inglês), eis o que ele disse sobre o aumento da popularidade do D&D:

É uma coisa muito simples, mas na Quinta Edição, a decisão de não necessitar de miniaturas foi tremenda. Ao fazermos isso, libertamos todos da mesa de jantar, e em muitos aspectos, tornamos possível a expansão de streamings que estamos vendo hoje.

Resumindo, Crawford colocou as miniaturas como um tipo de barreira de entrada para quem queria começar no D&D. Mas quando exatamente as miniaturas se tornaram um requisito?

D&D Era (ou sempre foi) um jogo de Miniaturas?

O Co-criador de D&D Gary Gygax descreveu a caixa básica do Dungeons & Dragons original como “Regras para campanhas de Wargames, usando papel, caneta e miniaturas”. Gygax era um Wargamer, que utilizava jogos de miniaturas para simular batalhas épicas em suas mesas. O público alvo de D&D eram esses Wargamers, e portanto o uso de miniaturas foi implementado para alavancar o Chainmail, um suplemento que ele criou visando Wargames com miniaturas. Esse tipo de jogo era mais do que um pouco assustadores para atrair novos jogadores. Jon Peterson explica em no livro Playing at the World (“Jogando Mundo Afora”, em tradução livre):

Quer numa caixa de areia, num piso ou num quintal ao ar livre, wargames com miniaturas evitavam tabuleiros e a facilidade resultante de quantificar movimentos com quadrados (ou hexágonos), em favor de terrenos irregulares e réguas para medir a distância do movimento. Vários tipos de soldadinhos de brinquedo – tradicionalmente feitos de madeira, chumbo ou estanho, que em meados do século XX passaram a ser feitos de variedade de ligas e compostos – povoavam essas paisagens diminutas, em várias atitudes de ataque e movimento. Embora a Avalon Hill (antiga loja e editora de jogos) vendesse tudo o que você precisava para jogar seus wargames numa caixinha, os wargamers de miniaturas tinham a responsabilidade e a liberdade de fornecer todos os componentes de um jogo: mapas, peças de jogo e o sistema. Considere que mesmo o jogo de tabuleiro mais complicado é facilmente retirado de uma prateleira ou armário, ter seu tabuleiro desdobrado e colocado sobre uma mesa, suas peças ordenadas e organizadas em uma configuração inicial, tudo num intervalo de alguns minutos – em instantes seu o jogo estaria pronto para começar. Não era assim com os wargames com miniaturas. Semanas podem ser gastas apenas na construção do campo de batalha, no qual árvores, estruturas, estradas de cascalho e assim por diante, são freqüentemente escolhidas para gerar máxima verossimilhança. Pesquisar uma batalha ou período histórico para determinar a composição do terreno, bem como as posições e equipamentos dos combatentes, era uma tarefa que poderia esgotar qualquer investimento de tempo e energia. Determinar como simular os efeitos de várias armas, ou as taxas de movimentação relativas de diferentes veículos, requeria pesquisas diligentes semelhantes, especialmente para evitar um jogo desequilibrado e injusto. Os wargames com miniaturas, consequentemente, não são algo realizado de forma leviana.

D&D ofereceu um combate em escala pessoal, algo que tornava a precisão necessária para os wargames com miniaturas muito menos que uma barreira. De fato, muitos dos monstros que conhecemos hoje eram, na verdade, brinquedos baratos convertidos para esse fim. É claro que representar com precisão a fantasia no campo de batalha não era uma preocupação primordial para Gygax. Peterson entra em mais detalhes sobre essa afirmação:

Apesar da anúncio na capa de Dungeons & Dragons, de que é “jogável com papel, lápis e miniaturas”, o papel das miniatura em Dungeons & Dragons é subestimado ao longo do texto. Mesmo no prefácio, Gygax confessa que “na verdade você nem precisará de miniaturas”, apesar de insistir que “embora seu emprego ocasional seja recomendado para um espetáculo real quando as batalhas forem travadas”. Essas batalhas espetaculares se referem inteiramente às regras do Chainmail e, portanto, não há mais menção a miniaturas em nenhum dos três livros de Dungeons & Dragons além da reiteração da afirmação de que seu uso não é necessário. A presença do termo “miniaturas” na capa da caixa marrom é, conseqüentemente, um pouco enganosa.

James Maliszewski afirma que esta tendência continuou no Advanced Dungeons & Dragons:

Mesmo assim, vale a pena notar que, apesar do subtítulo do jogo, miniaturas não estão listadas no “equipamento recomendado” de D&D, enquanto “Imaginação” e “1 Mestre Paciente” estão! Em outros lugares, afirma-se que “miniaturas podem ser adicionadas se os jogadores as tiverem disponíveis e assim desejarem, mas elas não são necessárias, apenas esteticamente agradáveis”. O livro de regras continua afirmando que “miniaturas variadas e brilhantemente pintadas” acrescentam “apelo visual”. O Livro do Mestre do AD&D, embora publicado cinco anos depois, em 1979, evidencia essencialmente a mesma atitude, dizendo que “miniaturas usadas para representar personagens e monstros dão cor e vida ao jogo. Eles também tornam mais fácil a tarefa de arbitrar a ação, particularmente o combate”.

O próprio Gygax confirmou que as miniaturas não eram necessárias em uma sessão de perguntas e respostas no ENWorld (em inglês):

Eu não costumo empregar miniaturas em minhas partidas de RPG. Nós paramos com isso quando migramos do CHAINMAIL Fantasy para o D&D. Não tenho nada contra o uso de miniaturas, mas elas são geralmente impraticáveis para jogos de campanha longos e caóticos, em que a cena e os adversários podem variar muito no decorrer de uma hora. O pessoal da GW (Games Workshop, tradicional produtora de wargames e jogos de miniaturas) as usa muito, mas eles estão lutando cenários de batalhas, como é comum em jogos de miniaturas. Não acredito que as miniaturas de fantasia sejam boas ou ruins para os RPGs de fantasia em geral. Se o mestre organiza sessões de jogo com base no seu uso, a partida resultante é ótima do meu ponto de vista. É principalmente uma questão de ter as figuras pintadas e uma grande mesa para jogar.

Então, se o jogo não exigia miniaturas e Gygax não as usava, de onde surgiu a ideia de miniaturas como requisito? Para isso, precisamos olhar as edições mais recentes.

Aplausos para a Quinta Edição

Jennifer Grouling Cover explica o complicado relacionamento que os jogadores tem com miniaturas no livro “The Creation of Narrative in Tabletop Role-Playing Games” (A Criação da Narrativa em RPG’s de Mesa, em tradução livre):

A falta de um elemento visual pode dificultar mais a imersão espacial em D&D do que em jogos mais visualmente orientados; entretanto, esse tipo de imersão ainda é importante para o jogo. Sem o componente visual para os RPG de Mesa, os jogadores podem ter dificuldade em imaginar o cenário exato que o Mestre estabelece. Uma pesquisa de mercado da Wizards of the Coast mostra que em 2000, 56% dos grupos de jogos usaram miniaturas para resolver esse dilema… Porque as regras de combate de D&D oferecem sugestões sobre o que você pode ou não fazer a certas distâncias, esses mapas de batalha ajudam os jogadores a visualizar a cena e decidir sobre suas ações… Embora alguns jogadores possam se interessar mais pela representação visual do espaço pintando e projetando cenários como miniaturas de castelos, essas ferramentas existem mais para mostrar relações espaciais do que para imergir jogadores visualmente.

Em essência, as regras da Terceira Edição que envolviam distâncias pareciam encorajar o combate baseado em tabuleiros e o uso em miniaturas. Mas a ascensão da Quarta Edição formalizou o combate baseado em tabuleiros, que por sua vez exigiu algum tipo de representação em miniaturas. Joshua Aslan Smith resumiu no site StackRPGExchange:

Todo o conjunto de regras da 4ª edição é dedicado ao equilíbrio e às complexidades do combate tático baseado em tabuleiros. Há exceções, como regras para desafios de perícias e outros aspectos de Interpretação do jogo (e não somente um jogo de rolagem de dados). Para maximizar os benefícios da 4ª edição e realmente jogá-la de forma correta, você precisa executar combates num tabuleiro de quadrados com 3cm de lado. Cada ataque e habilidade dos jogadores é baseado em torno desse preceito.

Isso significava que os jogadores estavam olhando para a mesa em vez de um para o outro, de acordo com o comentário de Crawford:

Parte disso é possível porque agora você pode jogar D&D e olhar para os rostos das pessoas. São pessoas olhando umas para as outras, rindo juntas, contando histórias juntas, e é para isso que estamos nos esforçando.

Somente com a quinta edição esse “teatro da mente” foi reintroduzido, onde tabuleiros, miniaturas e terrenos são desnecessários. Esse estilo de jogo nunca foi embora, mas teve a menor ênfase e apoio na Quarta Edição.

A remoção de miniaturas como um requisito realmente permitiu que o D&D prosperasse on-line? Charlie Hall, do site Polygon, explica que os ingredientes para o D&D ser divertido de assistir e jogar sempre estiveram lá:

Acontece que a mais recente edição do Dungeons & Dragons foi projetada para ser extremamente leve e fácil de jogar. Vários funcionários do Polygon gastaram muito tempo jogando o sistema e, em nossa experiência, foi muito fácil ensinar, até mesmo para novatos. Isso porque a 5ª edição do D&D trata de devolver o controle ao Mestre. Se você quiser jogar um D&D que não exija um mapa, ele é todo no teatro da mente, você pode fazer isso com o Skype. Ou com o Curse. Ou com o Google Hangout. Ou com o Facetime. Basicamente, se você consegue ouvir a voz de outro ser humano, você pode jogar D&D. Você nem precisa de dados. Isso porque Dungeons & Dragons e outros jogos de RPG que vieram depois dele, são sobre narrativas. As regras são uma forma divertida de arbitrar disputas, os mapas e miniaturas são incrívelmente bonitos e os livros são cheios de artes surpreendentes e histórias deliciosas. Mas a Wizards of the Coast quer que você jogue, e é por isso que a a mais recente versão das regras para iniciantes está disponível gratuitamente.

D&D sempre será sobre contar uma boa história. A diferença é que agora nossa atenção – e a câmera ou o microfone – pode ser focada em cada um de nós, ao invés de focar a mesa.

“O que a 5ª edição fez melhor”, de acordo com a designer de jogos Kate Welch, “foi a ideia de usar o teatro da mente e imaginação, e colocar a ênfase na história e no mundo que está sendo criado pelos jogadores.” Esse é o tipo de “drama que as pessoas querem ver”, tanto em suas próprias aventuras quanto em suas telas.

Se os números são alguma indicação, isso torna o D&D muito mais divertido de assistir.

(Artigo traduzido, publicado originalmente em http://www.enworld.org/forum/content.php?5280-Flipping-the-Table-Did-Removing-Miniatures-Save-D-D)

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