Aprimorando seus Cenários de Campanha

Pensando sobre os aspectos que fazem de uma aventura de RPG algo tão encantador, capaz de envolver a mente e empatia dos jogadores de maneira próxima e sentimental, é impossível não pensar no cenário de campanha como um forte (se não essencial) elemento de construção desse conceito de aproximação única no mundo dos jogos. Ora, não à toa, será o cenário a base para as aventuras imaginárias vividas pelos personagens dos jogadores, os heróis daquela história, e o que seria de uma boa trama sem os vilões, aliados ocasionais, ou mesmo aquela ruína onde estão escondidos os tesouros almejados? Tudo isso faz parte do cenário, e é a matéria vida responsável por dar credibilidade ao universo imagino durante a sessão de RPG.

Dessa forma, mesmo cenários prontos, ou seja, já recheados de elementos como os citados acima, com o propósito de interagirem com os protagonistas da aventura, Arton, Toril, e Faerûn, por exemplo, partem desde o início da premissa que serão modificados tanto pelos jogadores quanto pelo mestre. E ai está um grande charme do RPG enquanto jogo interativo e dinâmico. Os aspectos do cenário de campanha estão lá, no caso dos publicados, para servirem de complemento a história dos personagens dos jogadores (PdJ´s). No fim, serão eles e suas vivências que dirão o que é relevante ou não para aquele universo base para suas conquistas.

Agora, se isso é interessante para os jogadores, digo, a capacidade de modificar o mundo de jogo, imagine o prazer sentido pelo mestre ao fazer isso. Como narrador, posso afirmar que incluir elementos seus em um cenário concebido é uma das coisas mais satisfatórias da função. Sentir que suas adições complementam e interagem com figuras clássicas de um universo, e suas cidades e locais desafiam a habilidade dos PdJ´s, é algo único e pra lá de instigante, pode acreditar. Porém, como fazer isso? De que forma adicionar elementos que tornem um cenário de campanha já idealizado (como os citados acima) ainda mais interessante e complexo para suas campanhas? Sobre isso, vamos tratar com mais detalhes abaixo:

Inclua Novos Locais no Mundo de Jogo

Imagine a seguinte situação, ao iniciar sua campanha na Terra-Média vista no RPG O Um Anel (Devir Editora), provavelmente os jogadores conhecerão vários locais, como Bree, Minas Tirith, Erebor, e Valfenda, da mesma forma, seus respectivos senhores. Todavia, pensa na possibilidade criativa de começar o jogo no Umbar, região oriental desse cenário pouquíssimo descrito por Tolkien em suas obras? Ou em Lamedon, uma das localidade de Gondor pouco explorada também nos romances? A riqueza desse ato está em ter a oportunidade de criar elementos de cenário para um universo tão rico e querido, e ao mesmo tempo ter referências que possam interagir com esses aspectos. Fora a questão da surpresa dos jogadores diante do desconhecido e personalidade concedida ao jogo ali narrado.

Da mesma forma em Arton, de Tormenta RPG (Jambô Editora). É bem possível que os PdJ´s tenham certo conhecimento de Vectora, Malpetrin, e Khalifor, mas e daquela misteriosa cidade que declarou guerra ao Reinado, no interior de Yuden, usando um exército de mortos-vivos em suas fileiras? E sobre as ruínas do covil do mago lunático que fundou a aldeia próxima a Norm, a cidade dos cavaleiros da Ordem da Luz? Ou seja, usar referências do próprio mundo de jogo, para embasar suas criações, além de ajudar na imersão dos jogadores na aventura, dá credibilidade ao novo elemento, mantém a coerência da narração, e possibilita a particularidade de sua campanha.

Portanto, mesmo que use cidades ou localidades já conhecidas pelos jogadores, personalize da sua maneira e dê mais credibilidade ao cenário. Ora, mesmo conhecendo a Cidade-Lago, os personagens sabem onde fica a guilda dos ladrões do local? E o templo dos curandeiros? A entrada da masmorra que guarda dos tesouros de um antigo e mesquinho senhor da cidade? Mesmo que não existam oficialmente no cenário, esses locais são um toque de particularidade ao cenário, e podem ser enriquecidos pelo próprio histórico dos PdJ´s ou por suas aventuras.

Inclua Coadjuvantes e Embase sua Participação no Cenário Descrito

Embora os elementos de cenário, descritos mais acima, sejam de fundamental importância para a construção de uma história mais crível, coesa e imersiva para os jogadores, ele perde muito de seu encanto se não existirem habitantes nele. Ora, o que seria daquela taverna sem o carismático taverneiro ou o soturno ladino espreitando pelos cantos? A desbravadora nave espacial sem o capitão intratável ou aquele mecânico sempre pronto a resolver pequenos problemas em troca de dinheiro ou favores?

Na verdade, enquanto os cenários compõe um todo criativo e instigante para os seus jogos, os personagens coadjuvantes (controlados pelo mestre) são os detalhes que movimentam aquela estrutura descrita. Assim, desde os reis aos bandidos espreitando nos becos, dos sábios magos ao líder orc que comanda uma terrível ameaça, esses personagens fazem a ação dos personagens dos jogadores ser mais complexa e parte de algo vivo e único. Portanto, quanto mais vívidos, marcantes e atuantes forem esses tipos na narração, maiores as chances daquela sessão, ou campanha, ser memorável para quem participa dela.

No entanto, antes de adicionar esses personagens ao cenário de campanha, é importante que eles tenham certa coerência com o ambiente onde estão, e, caso não sejam, haja uma boa explicação para isso. Por exemplo, imagina que um grupo de aventureiros medievais invade uma masmorra em busca de tesouros. Esperando encontrar uma fera bestial como desafio final, os heróis de deparam com um imenso, e enferrujado, robô protegendo a riqueza do local. Uma surpresa meio incoerente com o cenário, não? Porém, existem várias explicações possíveis para ambientar esse desafio ali, indo dos resquícios de uma antiga e mais avançada civilização, até os experimentos de um gnomo visionário. Portanto, inclua coadjuvantes interessantes, e com bons argumentos para dar mais verossimilhança ao cenário.

Inclua Elementos Sociais e Culturais aos Cenários

Outro ponto que ajuda, e muito, a dar mais credibilidade e atrativo ao cenário de campanha, já publicado ou original, é a inclusão de costumes sociais e culturais próprios do local onde se passa a aventura. Voltemos a Terra-Média de O Um Anel. Mesmo sabendo MUITO sobre esse universo, sempre é possível adicionar costumes que possam dar ainda mais riqueza ao cenário, personagens coadjuvantes, e a narração como um todo. Imagine Lórien, por exemplo, o reino da rainha élfica Galadriel. Em seu jogo, pode ser um costume dos elfos locais, uma vez por ano, caçar um grande cervo e o sacrificar em honra de seus deuses, em Aman.

Segundo o costume, convidados também podem participar, e, caso sejam os responsáveis pela captura no magnífico animal, serão considerados amigos dos elfos em qualquer lugar onde eles estejam, recebendo seu auxílio em momentos de dificuldade. Assim, além de adicionar um costume ao cenário da campanha, o narrador ainda movimenta a trama, e envolve mais os personagens naquela ocasião.

Da mesma forma, costumes locais podem se chocar com aqueles seguidos pelos personagens, criando ainda mais conflitos e adicionando um gosto maior na aventura. Imagine uma cidade onde seja proibido soltar magia, ou cultuar os deuses, andar armado, ou falar em outro idioma que não o oficial? As possibilidade são enormes, e ajudam sobremaneira na construção de um cenário e trama ainda mais instigantes e desafiadoras para os jogadores. Além disso, esses costumes devem estar entrelaçados aos locais e coadjuvantes conhecidos na aventura, entrelaçando esses elementos, e dando mais credibilidade ao mundo de jogo.

Como visto acima, mesmo em cenários de campanha já publicados, sempre existem inúmeros espaços onde o mestre pode criar a vontade, dando uma tonalidade bem particular ao seu próprio jogo, sem esquecer de adicionar nuances do passado dos personagens de seus jogadores, os envolvendo ainda mais na narrativa.

Por experiência própria, ajudar na expansão de um universo tão conhecido e amado por inúmeros leitores, apenas auxilia na diversão, envolvimento, e imersão de quem participa de uma sessão (ou campanha) de RPG. Pode acreditar.

Sérgio Magalhães

One thought on “Aprimorando seus Cenários de Campanha

  1. Excelente matéria, realmente uma personalizada da nossa parte nos cenários existentes, faz toda uma diferença.

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